quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ética Diânica








O dianismo feminista é marcado por forte conteúdo programático e ético, o que pode o diferenciar até mesmo de outras tradições neopagãs que não possuem tanto conteúdo político. 
  
Inspirada ao mesmo tempo pelo movimento feminista e pelo neopaganismo,  a ética da Tradição Diânica é neopagã e, portanto, pode diferir da ética do cristianismo, embora também possa se assemelhar muito a ela em alguns pontos.  Ao mesmo tempo, também é uma ética feminista, que propõe um novo papel da mulher na sociedade, independente de sua religião.

Esse artigo tem o objetivo de apontar, de forma não exaustiva, algumas das principais  características da ética diânica.

Grosso modo, pode-se dizer que a ética diânica baseia-se em sete princípios básicos:  1) adesão à Wicca Rede (“faça o que quiser, mas não machuque ninguém.” 2) foco na responsabilidade pessoal, 3) respeito ao livre-arbítrio, 4)  crença na lei do retorno, 5) crença na sacralidade de  todos os seres, 6)  preservação da natureza e, 7) valorização do sagrado feminino e união entre as mulheres.



Nesse sentido, é importante enfatizar que tratam-se de princípios e conselhos. No dianismo, não existem regras pétreas, pecados, dogmas ou mandamentos. Cada mulher, baseada no seu livre-arbítrio, tem o direito e o dever de decidir como agir em cada caso, se responsabilizando pelos seus atos e palavras. Por exemplo, é possível que uma diânica decida deliberadamente violar a Wicca Rede, mas ela – como qualquer ser humano - estará sujeita às conseqüências dessa violação perante a si mesma e a própria existência, ambas divinas. Assim, longe de ser uma religião amoral, o dianismo acredita que – por fazermos parte do todo – devemos sempre estar cientes de como agimos no mundo, pois o que afeta o outro também nos afeta.

1) Adesão à Wicca Rede.

O principal conselho diânico (e neopagão) é  “Faça o que quiser; não prejudique ninguém.”. É a regra da reciprocidade (regra de ouro), presente em quase todos os sistemas religiosos.  Trata-se do reconhecimento de que a principal lei da Deusa é “amor a todos os seres”. [1]

No entanto, como muitos neopagãos já apontaram (e, paralelamente, estudiosos da regra de ouro), se levarmos essa frase ao pé da letra, verificaríamos que é impossível não prejudicarmos ninguém.  Pisamos em formigas, comemos animais e plantas, passamos em concursos (o que significa que alguém não passou), recebemos aumentos salariais (o que quer dizer que os recursos que poderiam estar sendo dirigidos para outras áreas da sociedade estão sendo dirigidos para o nosso conforto e o conforto de nossa família).  De certa forma, todo dia, prejudicamos alguém pelo simples fato de existirmos. 

Z.Budapest procura resolver esse dilema afirmando que a Wicca Rede ou o conselho wiccano, como também é chamado, só se aplica estritamente a rituais e atos mágicos.  Além de discordar dessa posição, pois somos as mesmas mulheres dentro e fora do nosso círculo mágico, acredito que isso não resolva o problema, pois mesmo se restringirmos a Wicca Rede aos atos de magia, inevitavelmente prejudicaremos alguém pela mesma lógica exposta acima, seja por ação ou inação.

Uma solução mais comum no dianismo é não tratar a Wicca Rede como um mandamento, mas um conselho como o próprio nome já diz. Não há porque fazer uma leitura extremada da regra da reciprocidade. Particularmente sob o ponto de vista feminista de valorização e auto-valorização da mulher, esse conselho não tem o objetivo de nos fazer morrer de culpa, ficar paranóicas ou viver uma vida de miséria – afinal, o “ninguém” da frase  também inclui nós mesmas! - mas de fazer com que nós estejamos mais atentas para nossa inevitável influência na grande teia da existência e procurar não ferir ninguém por descaso, por ficarmos paradas quando deveríamos agir ou em um momento de raiva. Em outras palavras, a Wicca Rede nos aconselha a “caminhar leve sobre a terra”. Trata-se de um conselho para atingirmos o nosso melhor pessoal e examinarmos criticamente nossa ação e inação, com toda a paciência com os nossos erros, estando dispostas ao aprendizado, à correção ou reparação quando possível.  

2) Foco na responsabilidade:

O dianismo advoga a completa liberdade baseada na responsabilidade: uma diânica feminista pode ser e fazer o que desejar, mas sempre será responsável perante a si mesma e o universo por suas decisões.  Longe de promover comportamentos irresponsáveis, a ética diânica  demanda que nós estejamos sempre cientes das conseqüências de nossos atos e palavras. 

Não existem “dogmas” ou “mandamentos”, mas conselhos de como se comportar.  Em outras palavras, na moral diânica (e neopagã), existe uma substituição do modelo dicotômico entre o bem e o mal e a noção de pecado pela noção de responsabilidade e causa e conseqüência.  (A Deusa é todas as coisas). Essa moral leva à adoção de conceitos psicológicos sofisticados e à não rejeição  ou anulação das emoções consideradas “negativas”. A diânica se aceita como um todo – completa - e procura a aplicação, expressão e administração responsáveis
de todas suas emoções de modo a respeitar a Wicca Rede da melhor forma possível.

Na ética baseada na responsabilidade, não há ameaças. Não há inferno ou outros métodos de coerção.  

3) Respeito ao livre-arbítrio.  

Seria impensável que uma religião que propõe a liberação da mulher não defendesse – com unhas e dentes – o livre-arbítrio.  Cada mulher tem o pleno direito de decidir o que é melhor para si, para seu corpo, mente e espírito, mesmo que não concordemos com ela. Ela tem a última opinião sobre tudo que afeta sua religiosidade.  Assim, cada mulher define qual é o seu melhor pessoal.  Não existem fôrmas ou modelos pré-estabelecidos de “boa moça”. Cada uma de nós pode dar o melhor de si de nossa própria maneira.

Dessa forma, aconselha-se vivamente que diânicas nunca, nunca permaneçam em grupos religiosos que as pressionem direta ou indiretamente para que elas cometam atos que as façam se sentir especialmente desconfortáveis ou violem seu livre-arbítrio.  Isso é especialmente verdadeiro em situações que possam envolver sexo, drogas de qualquer espécie ou qualquer ação que a diânica considere que vai contra sua compreensão do conselho “não prejudique ninguém”. Uma mulher nunca deve aceitar que qualquer pessoa que se intitule “alto-sacerdote” ou “alto-sacerdotisa” se sobreponha ou descarte aquilo que ela mesma considera ser certo ou errado. Lembre-se que mulheres são particularmente vítimas desse tipo de armadilha e instrumento de dominação, que pode, inclusive, levar a sérios traumas e até mesmo crimes graves. Se seus instintos e intuição dizem para se afastar de um grupo ou pessoa com essas características, se afaste imediatamente. Não ignore sua voz interior[2].

O dianismo feminista propõe a liberdade de cada mulher, segundo seu próprio entendimento do que é certo ou errado. A violação desse poder de escolha – a qualquer momento -  não é acolhido pela Tradição.


4) A Grande Teia e a Lei do Retorno.

Existe, também, a crença de que vivemos na grande teia da existência, completamente conectados uns aos outros, para o melhor e para o pior. Somos todos parte do corpo da Deusa. O que afeta um indivíduo, afeta todos os outros, inclusive a nós mesmas. Nesse contexto, a Tradição Diânica concorda com a crença popular de que recebemos o que enviamos –  por exemplo, atos injustos retornam como injustiça contra nós e atos justos retornam como justiça a nosso favor.  A lei do retorno é a face objetiva do foco na responsabilidade:  as diânicas acreditam que o universo tratará de nos enviar de volta as palavras, os atos e os pensamentos que enviamos para ele, de uma forma ou de outra.

Algumas diânicas – particularmente sacerdotisas iniciadas - acreditam que estão submetidas à lei tríplice:  o retorno triplicado do efeito que causamos à grande teia seja por ação ou inação. Algumas mulheres têm uma concepção literal da Lei Tríplice: o retorno triplo de tudo o que fazemos. Outras acreditam que essa lei é mais simbólica: um retorno que ocorre nos três níveis da existência (alto, centro e submundo) ou em todo o ser (corpo, mente e espírito).  Algumas mulheres acreditam que a Lei Tríplice se aplica apenas a atos mágicos. Outras acreditam que ela é aplicada a qualquer ato consciente.

5) Crença na sacralidade de todos os seres.

A Deusa diânica é imanente a toda a realidade, visível e invisível, presente, passada e futura. Ela está presente em todas as coisas e certamente está presente em todas as mulheres. Toda a vez que estamos chateadas com alguém, vale a pena recordar a fagulha divina que existe em cada ser, que é, em essência, a mesma que existe em cada uma de nós.

Não interessa se uma pessoa que você conhece acredita em Jesus, na Deusa ou em alienígenas - cada um – para as diânicas -  é parte do todo divino  e segue o caminho que é mais apropriado para si. Assim, não há necessidade de proselitismo. Por não haver um pecado original (tudo é sagrado e sempre foi sagrado), não é necessário um redentor ou um messias para nos salvar. Tudo que é necessário é viver  da melhor forma possível.  A Deusa cuida de nós e é nosso dever como boas filhas cuidar dela, mesmo que muitas vezes nossa contribuição nos pareça ser ínfima em escala global.

Todas nós somos filhas da Deusa. E cada mulher é capaz, com a ajuda de suas irmãs, de encontrar seu caminho, seu crescimento e sua cura pessoais, de acordo com seus próprios parâmetros conscientes do que vem a ser seu melhor pessoal.

6) Preservação da Natureza

A sacralidade da Natureza é especialmente venerada pela Tradição Diânica.  Procuramos, da melhor forma possível, caminhar leve sobre a terra que nos cria, nutre e nos abraça quando chega nossa hora.  Somos muito agradecidas por todas as dádivas da vida e procuramos nos integrar a ela de forma sustentável. A Natureza é nosso livro sagrado, nosso templo e nossa Mãe. É a nossa razão de ser. Ao tratarmos dela, procuramos aplicar ao máximo todos os princípios éticos que viemos comentando acima.

7) Valorização do sagrado feminino e união entre as mulheres.  Em nossa sociedade, é imensa a carga cultural que desune e desvaloriza as mulheres. Desde muito cedo, somos ensinadas a desconfiar umas das outras, a nos vermos como rivais (particularmente pela atenção masculina), a ver imperfeições em nossos corpos, espíritos e mentes, a lamentarmos não termos nascido homens, com todas as vantagens atribuídas ao mundo masculino.  Essas mensagens estão sempre ao nosso redor: nos filmes, nos livros, nas revistas, nos anúncios e novelas, nos discursos políticos e até mesmo em nossas famílias.

A Tradição Diânica busca reverter essa construção cultural ao recordar que nossos corpos são nossos templos interiores, ao recordar tudo o que temos em comum, tudo o que nos une e – ao mesmo tempo – a respeitar nossas diferenças como indivíduos livres. A Tradição Diânica nos ensina a deixar de colocar as mulheres de nossa vida – nossas mães, avós, irmãs, amigas, colegas de trabalho, chefes, professoras e até mesmo rivais – em segundo plano, dando a elas o destaque que merecem como criaturas divinas, filhas da Deusa. A Tradição Diânica nos ensina que enquanto permanecermos criticando, traindo e desrespeitando umas às outras, permaneceremos sendo tratadas como cidadãs de segunda classe e que não existe – para nós -  reencontro mais divino do que aquele com a irmandade feminina.

E os homens?  Para o dianismo feminista, os homens merecem o mesmo respeito e consideração que as mulheres! Todas nós temos país, irmãos, filhos e amigos. Não faz parte do dianismo tratar homens como cidadãos de segunda classe. Não defendemos o femismo (machismo às avessas, dominação da mulher sobre o homem), mas o feminismo (a idéia revolucionária de que mulher também é gente).

A ênfase no tratamento às mulheres é dada em razão de sermos uma tradição religiosa focada nas mulheres, nos mistérios femininos e no sagrado feminino.  Além do mais, em razão da carga cultural mencionada, a mulher é, freqüentemente, algoz da mulher, de modo que recordar nossa irmandade é essencial em nossas crenças. 

Ética Diânica, Maldições e “Feitiços de Manipulação”

Algumas diânicas feministas são completamente contra a realização maldições ou feitiços de manipulação do livre-arbítrio de outras pessoas.  Elas acham que qualquer feitiço nesse sentido viola a Wicca Rede, a Lei Tríplice e o valor que o dianismo atribui ao livre-arbítrio.

Outras diânicas feministas acreditam que a possibilidade de lançar maldições e feitiços de manipulação  é possível em certos casos e acham justo usar esses meios para combater a opressão dos mais fracos –particularmente mulheres e crianças -  no contexto do patriarcado. Para estas diânicas, seria perfeitamente legítimo, por exemplo, amaldiçoar um estuprador para que ele seja pego pela policia, ou enfeitiçar um chefe para que ele pare de agir com dano moral no ambiente de trabalho, ou um filho ou uma filha para que ele ou ela se livre das drogas. 

Jade River chama o primeiro grupo de “praticantes positivas” (positive practitioners)  e o segundo grupo de “aradianas”, em referencia à Deusa Arádia, nas quais essas mulheres se inspiram. [3] 

Na verdade, a grande maioria das diânicas fica entre um grupo e outro. Como tudo na ética neopagã, essa é uma questão de escolha pessoal e relação entre a mulher e sua própria consciência.  A ética neopagã é mais individual e aberta do que a de outras crenças religiosas e talvez esteja nisso sua grande diferença em relação a estas.  Somos responsáveis por nossos atos e não atos. Fim de papo.

Mas mesmo Z. Budapest - que é provavelmente uma das diânicas mais liberais no que se refere a maldições e os chamados “feitiços de manipulação”[4] - aconselha que não se diga o nome de um “culpado” específico durante a maldição, para evitar injustiças. Por exemplo, em uma maldição contra um estuprador, diz-se “Eu amaldiçôo aquele me estuprou.” (a Deusa sabe perfeitamente quem foi mesmo que você esteja enganada). A mesma Z. Budapest recomenda:

 “Não cause nenhum mal, mas aja para garantir sua auto-defesa e auto-estima.”

Essa frase deriva da idéia que todas nós somos sagradas perante a Deusa, inclusive nós mesmas.  A maldição feita por grupos de mulheres a estupradores ou qualquer um que faça mal a crianças, mulheres  e outras pessoas indefesas é uma prática muito antiga que é adotada por muitos grupos diânicos. Eles consideram essa prática, inclusive, como um fator que contribui para a cura da vítima, que vê suas irmãs empatizarem com sua situação e se unirem em sua defesa.

Muitas diânicas são radicalmente contra – ou evitam ao máximo - amaldiçoar outras mulheres em razão do efeito sobre nossa irmandade. Realmente, a prática muito difundida de mulheres amaldiçoando suas rivais no amor, trabalho,  família, etc em nada tem a ver com os princípios éticos do dianismo feminista.

Em outras palavras, mesmo quando aceitam a maldição e o feitiço de manipulação em alguns casos, é seguro afirmar que as diânicas feministas não defendem a prática irresponsável de maldiçoes a torto e a direito, por motivos fúteis ou simples demonstração de poder.  Quando sua prática é defendida, é muito mais no sentido de proteger algo ou alguém que se encontra em desvantagem ou vulnerabilidade do que no sentido de causar mal a um indivíduo específico. Tratam-se de casos graves de violência e opressão e não de mera “guerra mágica”. Em razão dos princípios mencionados acima, a maior parte das praticantes, porém, são “praticantes positivas”, fazendo de modo geral exceção ao feitiço para que criminosos sejam encontrados e punidos.


E quando tudo mais falha?

Desnecessário dizer que não é fácil seguir a risca a forte ética proposta pelo dianismo feminista e que, ao longo de nossas vidas, nos deparamos com muitos casos em que vários valores estão em jogo e não sabemos exatamente como agir. Nesses momentos, vale a pena escutar as vozes do bom senso, da intuição, de nossas irmandade e, é claro, da Deusa. Mais cedo ou mais tarde,  saberemos o que fazer, ou, pelo menos, compreenderemos que tomamos a melhor decisão possível com as informações que tínhamos disponíveis em um determinado contexto.  Afinal, se as Deusa nos quisesse infalíveis, teria nos feito infalíveis.




“Eu caminho com beleza

Enquanto caminho, enquanto caminho,
O universo caminha comigo,
Com beleza, ele caminha a minha frente,
Com beleza, ele caminha as minhas costas,
Com beleza, ele caminha abaixo de mim,
Com beleza, ele caminha acima de mim,
Com beleza por todos os lados, eu caminho,
Enquanto  caminho, eu caminho com beleza.”

Prece Navajo de Encerramento.






[1]  Charge of the Goddess -  D. Valiente
[2] Adaptado de The Goddess in the Details -  Wisdom for the Everyday Witch –  de Debora Blake
[3] Jade River, To Know: A Guide to Women’s Magic and Spirituality.
[4]  A principal idealizadora da Tradição Diânica afirma que maldições têm sido lançada por mulheres desde tempos antigos, até como uma forma de “poder de polícia” contra aqueles que faziam mal à mulheres e crianças – um poder  muito respeitado nas sociedades pagãs. Ela acredita que a atual condenação moral às maldições foi uma forma das grandes religiões patriarcais – como cristianismo, judaismo, budismo e islamismo - de vilanizar e restringir o poder espiritual, social e mágico das mulheres.

2 comentários:

  1. Há algo para vocês aqui:


    http://gherminando.blogspot.com/2010/11/voce-faz-diferenca.html

    =*

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